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Neoplasias malignas tratadas no consultório

 

Trabalho do cirurgião-dentista é muito importante para o sucesso dos tratamentos no combate ao câncer

 

O câncer é uma das doenças que mais tem acometido a sociedade moderna. Mais do que isso, ele é uma das principais cau-sas de óbito em todo o mundo. A estima-tiva par o ano de 2006 era de que fossem relatados mais de 470 mil novos casos no Brasil, sendo aproximadamente 250 mil so-mente na região sudeste do país.  É visando combater a esses números tão assustadores que a oncologia vem se empenhando cada vez mais na busca pela cura dessas neoplasias.

 

Desvendando as neoplasias

 

As neoplasias malignas, popularmente chamadas de câncer, são conhecidas há muitos anos. Trata-se da proliferação de clones celulares atípicos, frutos de uma reprodução celular anormal. As células diferenciadas são produzidas em um ritmo que foge do controle e passam a destruir o tecido normal da região.

 


Células cancerígenas

 

Essa produção anormal de células defeituosas em um ritmo desenfreado pode levar a conseqüências graves, inclusive à morte.  Para combatê-la, costuma-se utilizar a quimiote-rapia e a radioterapia.

 

Os remédios utilizados na quimioterapia para interromper a produção de células anormais costumam ser fortes, o que traz alguns prejuízos ao organismo humano, já que não é possível distinguir as células neoplásicas das normais que se proliferam rapidamente.

 


Medicamentos quimioterápicos 

 

Para obter sucesso no combate ao câncer, é importante que haja um trabalho conjunto de diversos profissionais da saúde, já que o tratamento oncológico pode provocar manifestações em diversas partes do corpo, inclusive no complexo bucal.   

 

Onde entra o CD nessa história toda?

 

O papel do cirurgião-dentista dentro da equi-pe que realiza o tratamento oncológico é de extrema importância. É ele que tem a função de prevenir, diagnosticar e tratar todas as seqüelas que envolvam a região da boca, pro-porcionando ao paciente um maior conforto e diminuindo os riscos de complicações durante o tratamento.

 

Durante o tratamento quimioterápico, a resistência do or-ganismo cai, tornando-o mais suscetível a infecções e demais complicações. Por isso é importante que o CD fique atento a qualquer modificação na saúde bucal. Algo que seria simples de se tratar em outras situações pode se agravar nesse quadro.

 

As complicações no complexo bucal são, em grande parte, responsáveis pelo declínio da qualidade de vida do paciente ao longo da quimioterapia. Dependendo do grau das com-plicações bucais, chega a ser necessário o prolongamento ou até mesmo a interrupção do tratamento quimioterápico.

 

O surgimento de feridas na boca e a diminuição no fluxo de saliva, a-lém de serem incômodos ao paci-ente, podem dificultar sua alimen-tação, contribuindo para uma piora no quadro clínico. O mais indicado é que, assim que for diagnosticada a neoplasia maligna, o paciente procure um dentista para fazer uma avaliação de sua saúde bucal antes de dar início às sessões de quimioterapia.

 

A visita ao consultório dentário deve ser feita para que o dentista veja se há cáries extensas ou a necessidade de se realizar um tratamento endodôntico. Em caso positivo, é preciso acabar com os problemas antes de dar início ao tratamento oncológico, já que as cáries e os problemas en-dodônticos podem dar origem a infecções bucais severas.

 

Também é importante que o profissional de odontologia saiba o tipo de câncer de seu paciente, para que possa trabalhar no sentido de evitar as complicações tanto antes quanto durante o tratamento.

 

As complicações bucais mais freqüentes

 

As complicações bucais são um efeito bastante comum na quimioterapia. Em média, 70% dos portadores de neoplasia serão submetidos a tratamento quimioterápico. Dentre esses pacientes, 40% apresentam complicações bucais e podem precisar de tratamento odontológico. Esse número varia com a faixa etária do paciente. Para pacientes de até 12 anos, os efeitos na saúde bucal atingem praticamente 90%.

 

São diversos os modos como as complicações bucais apa-recem, podendo ir de uma queda na produção de saliva ao surgimento de mucosites. Independente do tipo de com-plicação, todas devem ser evitadas e tratadas para não atrapalhar o tratamento da doença e para promover bem estar ao paciente.

 

Mucosite Oral


Esse tipo de lesão é caracterizado pela inflamação, infec-ção ou ulceração da mucosa da boca. A radio ou quimiote-rapia acaba causando danos diretos ou indiretos às células da mucosa, já que influi diretamente em seu ciclo celular.

 

A camada basal é a mais prejudicada, fazendo com que os efeitos sejam notados logo nas duas ou três semanas após o início do tratamento e desaparecem de duas a três semanas após seu término. A inflamação ou ulceração da mucosa pode resultar em dor, desconforto e disfagia.

 


Mucosite: inflamações na mucosa

 

Em alguns casos o incômodo causado pela mucosite é tan-to que ela dificulta a deglutição, comprometendo a nutrição do paciente e levando-o, em alguns casos, à necessidade de uma alimentação parenteral.

 

O tipo de câncer influi diretamente no surgimento da muco-site. Pacientes que realizam tratamento para combater o câncer no sangue, por exemplo, apresentam mucosite de grau elevado em 60% dos casos. Se for necessário um transplante de medula, a incidência de mucosites bucais de grau três ou quatro sobre para 75%.

 

A severidade das lesões na mucosa bucal também está diretamente ligada com a dosagem dos medicamentos uti-lizados na radio ou quimioterapia.  A ação citotóxica dos agentes quimioterápicos produz inflamação e ulceração nos tecidos da boca.

 

Entre os agentes citotóxicos antimetabólicos que podem causar mucosite podemos citar o metotrexato, a doxorru-bicina, a dactinomicina, a bleomicina e o 5-FU (5-fluorou-racil). Quando administrado por cinco dias consecutivos, é comum que apareça a mucosite oral e ela pode ser poten-cializada caso haja adição do fator leucovorina ao 5-FU, por exemplo.  

 

- Prevenção e tratamento

 

A mucosite oral pode ser evitada, ou seus efeitos diminuí-dos, se o paciente passar por uma avaliação odontológica antes de dar início ao tratamento. O correto seria que a avaliação fosse feita de sete a catorze dias antes do início da administração de altas dosagens de quimioterapia.

 

Além da avaliação pré-tratamento quimiote-rápico, o cirurgião-dentista deve realizar exa-mes bucais diariamente, durante todo o tra-tamento quimioterápico. Para facilitar o exa-me, é indicado o uso de hastes cobertas de vaselina ao invés de madeira, para tornar o exame menos incômodo. Uma boa higiene bu-cal também é indispensável para bons resul-tados, bem como a utilização de enxaguató-rio bucal à base de peróxido de hidrogênio a cada duas horas.

 

Xerostomia

 

A xerostomia, ou boca seca, também é uma complicação bucal bastante comum entre as pessoas que fazem trata-mento radio ou quimioterápico para o combate a neoplasias malignas.

 

A ação dos medicamentos no organismo humano atinge di-retamente a produção salivar, que diminui e dá origem a uma saliva mais viscosa. Com isso, a deglutição torna-se mais difícil e o acúmulo de bactérias aumenta.  A dieta pastosa e o acúmulo de placa bacteriana ocasionado pela saliva mais viscosa propiciam um maior número de cáries.

 

Além do aumento no número de cáries, a boca seca tam-bém causa desconforto ao paciente, dificultando a fala, a deglutição e a fixação de próteses. Se a xerostomia estiver associada à mucosite, ela também pode intensificar os sin-tomas das inflamações já existentes e favorecer o surgi-mento de outras.

 


Boca seca

 

A xerostomia é muito freqüente em pessoas que utilizam o medicamento doxorrubicina, mas alguns medicamentos uti-lizados em conjunto, como antidepressivos, hipertensivos e tranqüilizantes, também podem ocasioná-la.

 

Seu surgimento também está diretamente ligado à predes-tinação do paciente. Se a pessoa já apresentava um fluxo salivar reduzido antes mesmo de dar início à quimioterapia, ela certamente sofrerá com a xerostomia.

 

- Prevenção e tratamento

 

Para tentar evitar a boca seca, é indicado que o paciente portador de neoplasias malignas faça uso de amifostina e pilocarpina, além de bochechos com bicarbonato de sódio.  

 


Medicação recomendada

 

Caso a xerostomia surja como efeito colateral do trata-mento quimioterápico, há métodos de se minimizar o incô-modo causado. Um dos métodos mais utilizados são os substitutos artificiais da saliva, que oferecem um certo conforto ao paciente.

 

Osteorradionecrose

 

Considerada uma das mais graves complicações bucais, a osteorradionecrose consiste na modificação do tecido ósseo. Ela é conseqüência de uma insuficiência vascular na região ou uma infecção do osso. Esse tipo de complicação pode levar à perda de porções significativas da mandíbula e das maxilas e, em casos mais avançados, pode levar à exposição o tecido ósseo da arcada dentária.

 

 

Como a cavidade bucal fica mais suscetível a infecções durante o tratamento quimioterápico, a falta de um acom-panhamento odontológico e de uma boa higiene oral pode levar a cáries, doenças periodontais e inclusive à osteor-radionecrose.    

 

Os sinais mais freqüentes que podem diagnosticar a osteor-radionecrose são as fístulas cutâneas, espasmos muscu-lares, dor e dificuldade ao mastigar.  

 

Tratamento e prevenção

 

A osteorradionecrose pode surgir como conseqüência da extração de um dente durante ou logo após o tratamento quimioterápico. A importância de se visitar o consultório odontológico antes de dar início às sessões de quimio-terapia é justamente prevenir esse tipo de complicação. Os focos de infecção devem ser eliminados antes que a defesa do organismo fique debilitada pela quimioterapia ou depois que as sessões acabarem e o organismo voltar a combater as infecções.

 

Ao se deparar com um quadro de osteorradionecrose, o CD deve realizar uma antibioticoterapia prévia de dois dias e, então, remover os restos necróticos da região. Para controle do processo, é preciso continuar com cobertura antibiótica por no mínimo uma semana e utilizar soluções anti-sépticas à base de clorexidina ou iodetos várias vezes ao dia. 

 

Uma terapia alternativa para impedir a progressão da osteorradionecrose é a utilização de câmaras de oxigênio hiperbárico. 

 

 

Perda do paladar e hipoalimentação

 

Essas duas características são bastante comuns aos paci-entes que realizam tratamento quimioterápico e costumam desaparecer, em média, quatro meses após o término das sessões de quimioterapia.

 

O paciente que se submete à quimioterapia pode apre-sentar uma alteração na percepção do gosto ou perda de paladar. Ele conseqüentemente passa a se alimentar com menos freqüência, o que pode levar a quadros de desnutrição. 

 

A dificuldade na deglutição, causada por outras complica-ções bucais como a xerostomia e a mucosite oral, também causa a hipoalimentação.

 

Tratamento e prevenção

 

A dificuldade na deglutição pode ser tratada juntamente com as demais complicações bucais. Para combater e pre-venir a desnutrição, em alguns casos utiliza-se a nutrição parenteral.

 

A utilização do laser no combate às complicações bucais

 

Como já foi descrito acima, o tratamento radio ou quimio-terápico a pacientes com neoplasias malignas pode oca-sionar algumas complicações bucais e justamente por isso é importante a participação de um cirurgião-dentista junto à equipe médica.

 

A função do profissional da área odontológica seria de evi-tar ao máximo essas complicações, ou pelo menos diminuir o desconforto causado por elas. Entre os métodos mais indicados para se tratar e prevenir o surgimento de com-plicações bucais está o laser de baixa potência.

 

O laser de baixa potência (LBP) possui baixa energia, sendo utilizado para biomodulação. O efeito produzido pela irra-diação dos LBP é capaz de modular diversos processos metabólicos, transformando a luz laser em energia útil para a célula.

 

 

Uma das utilizações do LBP é como agente estimulador da salivação em pacientes com xerostomia. Um estudo reali-zado em 1996 mostrou que a aplicação de LBP pode dimi-nuir muito a incidência de xerostomia e mucosite oral em pacientes submetidos à radioterapia antineoplásica.

 

O estudo foi realizado com 60 portadores de câncer de cabeça e pescoço. Destes, 29 foram induzidos à radio-terapia sem laser e os demais 31 à radioterapia juntamente com aplicações de LBP. As aplicações de laser foram rea-lizadas desde o início das sessões e estenderam-se durante todo o tratamento.

 

O resultado do estudo mostrou que os pacientes subme-tidos à radioterapia com aplicações de LBP apresentaram um índice inferior de xerostomia e mucosite bucal. O índice salivar manteve-se superior ao dos pacientes não subme-tidos ao laser e a gravidade da mucosite oral também foi reduzida.

 

Como pode ser observado, o LBP apresenta bons resultados tanto na prevenção quanto no tratamento de complicações bucais. É um método simples que pode trazer inúmeros benefícios ao portador de neoplasias malignas, uma situ-ação em que qualquer conforto é mais do que bem vindo.

 
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