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Odontologia no Brasil - Parte I

De palmeiras a Tiradentes

Muito antes da caravela de Pedro Álvares Cabral ancorar nessas ensolaradas terras sul americanas, o Monte Pascoal, depois chamado Brasil, já tinha história. E muita!

Ao avistar silhuetas de palmeiras exuberantes no céu de fim de tarde, Pedro Álvares Cabral foi tomado antes por uma sensação de alívio e prazer que de surpresa. O “descobrimento” da terra de Vera Cruz não causou grande deslumbramento na tripulação da nau que mal acabara de deixar Portugal, pois já se sabia que, em algum ponto da travessia militar-comercial rumo às Índias, eles encontrariam terra. Alguns documentos apontam, inclusive, que a caravana lusa acreditava piamente já estar nas Índias, enganada pela cor queimada em rubro e os olhos puxados dos nativos americanos, habitantes daquele monte de terra.      

Nem bem aportaram na costa, que hoje é a Bahia, foram recebidos com ares de curiosidade por alguns homens pardos, maneira de avermelhados, nus, sem nenhuma cobertura, muito rígidos, armados de arco e flecha, na percepção do escrivão Pero Vaz de Caminha. As civilizações indígenas que aqui viviam já contavam com uma organização social bem constituída, com regras de conduta próprias, condizentes com sua história e estágio de evolução cultural.   
 
A interação entre duas culturas distantes é sempre delicada e, por isso mesmo, permeada por pequenos cerimoniais de aproximação. Trocaram presentes. Do lado luso, foram ofertados um barrete vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto. O indígena, por sua vez, também ofereceu uma parte de sua tradição, um cocar de penas muito coloridas e compridas. Dois mundos se encontraram em choque: o ser pré-histórico, da Idade da Pedra, receptor não-consciente de sua condição, perante seu futuro conquistador, o homem da Idade do Ferro.

Quanto à sua descoberta, o homem branco, lusitano barbudo da distante Europa, achou a princípio aquela terra um tanto desinteressante: ela era desprovida das excentricidades orientais tão requisitadas e bem aceitas pelos europeus mais abastados, como pimenta, canela, gengibre e tecidos finos.

Descrevendo os nativos, seres tão peculiares aos olhos europeus, Américo Vespúcio disse em 1502 em carta a Lourenço de Médici: Não têm lei, nem fé nenhuma. E vivem segundo a natureza. Não conhecem a imortalidade da Alma, não têm, entre ele bens próprios, porque tudo é comum: não têm limites de Reinos, e de Províncias; não têm Rei; não obedecem a ninguém. Cada um é senhor de si; nem favor, nem graça a qual não lhes é necessária, porque não reina entre eles a cobiça: moram em comum em casas feitas à moda de cabanas muito grandes, e para gente que não têm ferro, nem outro metal qualquer, se pode dizer que suas cabanas, ou casas maravilhosas, porque eu vi casas que são longas 220 passos, e largas 30, e habilmente fabricadas, e numa destas casas estavam 500, ou 600 almas. Dormem em redes estendidas de algodão, estendidas no ar sem outra cobertura; comem sentado no solo raízes de árvores, raízes de ervas, e frutas muito boas, inúmeros peixes...São gente muito prolífera; não têm heranças, porque não têm bens próprios...”

Romantismos acerca do “bom selvagem” à parte, é sabido que, de fato, a civilização sul americana encontrava-se a milênios de distância da européia em muitos aspectos de ordem mercantilista e política, (o que não deveria significar, em hipótese alguma, indícios de inferioridade em relação à cultura européia dominante, pois cada cultura basta a seu povo), e assim permaneceu por mais algum tempo.

A “descoberta” do Brasil pela frota de Pedro Álvares Cabral não surtiu efeitos imediatos nem para os nativos, nem para os portugueses. Somente meio século depois, em 1549, com a instalação de um governo-geral na Bahia, é que a influência de Portugal sobre o Brasil passou a ser exercida de forma mais contundente. Antes disso, a Coroa Portuguesa via nas Índias um porto mais atraente para se fazer comércio, pois os metais preciosos presentes no Brasil (que mais tarde tanto serviram como fonte de exploração mercantilista por Portugal), ainda não haviam sido descobertos.

Dentre as diferenças constatadas pelos colonizadores, estava uma prática exercida de forma muito rudimentar pelos amistosos nativos: as extrações dentárias. Eram elas praticadas de forma primitiva, com material impróprio e pouca noção de higiene. A nascente Odontologia era praticada por sangradores e barbeiros, que aprendiam seu ofício, a técnica de tirar dentes, com pessoas mais experientes por meio da simples oralidade e da vivência com os mais velhos.

Essa prática oferecia muitos riscos aos pacientes, motivo pela qual era evitava pelos médicos e cirurgiões da época, tementes das conseqüências com as quais teriam de arcar caso algum dos pacientes morresse ou apresentasse infecções e hemorragias decorrentes do tratamento. A Odontologia era vista como uma prática que fazia das mãos dos profissionais de medicina instrumentos duros e pesados demais para intervenções cirúrgicas consideradas mais minuciosas.

Para que pudessem exercer a Odontologia, os barbeiros ou Tiradentes tinham que obter uma licença especial conferida pelo cirurgião-mor “mestre Gil”. Caso contrário, poderiam ser presos ou multados. Os ofícios de Tiradentes e sangrador podiam ser exercidos pelos barbeiros. Os sangradores também podiam tirar dentes, desde que provassem nos exames de habilitação que durante dois anos “sangraram” e exerceram as demais atividades de barbeiro.

Com o paulatino enriquecimento do Estado de Minas Gerais, incrementado com o início do ciclo do ouro, a Casa Real Portuguesa nomeia o primeiro cirurgião-mor desse Estado, regulamentando os práticos de toda metodologia dentária. A prática passava a contar agora com certo grau de organização, tanto que, nesse mesmo período, a Lei 17 de junho de 1782 cria a Real Junta de Proto-Medicato, formada por sete deputados, médicos ou cirurgiões, para um período de três anos. A essa junta caberia o exame e a expedição de cartas e licenciamento de todos aqueles que tirassem dentes.

Nessa mesma época, Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, praticava a Odontologia tal qual aprendera com seu padrinho. Bem antes de mártir, era reconhecido por “tirar, com efeito, dentes com a mais sutil ligeireza e ornar a boca de novos dentes, que pareciam naturais, feitos por ele mesmo”, na percepção de seu confessor, Frei Raymundo de Pennaforte.

“Dentes que parecessem naturais” eram esculpidos em marfim e osso. Dentes humanos e de animais eram reutilizados e fixados na boca por molas, sistema já muito em voga na Europa. Em contrapartida, os dentes eram extraídos com alavancas rudimentares. Não havia ainda tratamento de canais e as obturações eram de chumbo, sobre polpas afetadas e tecidos cariados. As próteses eram simples e amarradas com fios aos dentes que ainda estavam fixos na boca. Essas práticas e procedimentos arcaicos traziam aos pacientes conseqüências negativas em sua saúde como um todo, não se restringindo somente à boca.

Nesse período, Piérre Fauchard escreve seu livro “Le Chirugien Dentiste au Traité des Dents”, revolucionando a Odontologia, criando métodos, técnicas e aparelhos. Recebeu o título de “pai da Odontologia Moderna”, ajudando a delinear a evolução pelo qual a profissão passaria, inclusive no Brasil.

O vocábulo “dentista” aparece pela primeira vez nos documentos do Reino no ano de 1800, quando foi criado o “plano de exames”, um aperfeiçoamento das formalidades necessárias ao ofício de Tiradentes. O termo “dentista” foi criado pelo cirurgião francês Guy Chauliac, em sua obra “Chirurgia Magna”, de 1363.

Com o estabelecimento da Corte e da Família Real em Salvador no ano de 1808, surgiu a necessidade de se promover o desenvolvimento daquela região. No Hospital São José, na Bahia, foi criada a Escola de Cirurgia, em uma época em que a profissão de dentista ainda despertava desconfiança na população, uma vez que era grande o número de traumatismos que sofriam os pacientes, atribuídos ao pouco conhecimento e habilidade dos Tiradentes.

Em uma das tentativas de moralizar a atividade, ante as inúmeras queixas contra os profissionais, o cirurgião-mor determinava em suas cartas que o barbeiro poderia exercer sua profissão desde que aceitasse e seguisse algumas restrições, “não sangrando sem ordem de médico ou cirurgião aprovado e não tirando dentes sem ser examinado”.

Mas muito mais ainda estava por acontecer antes do surgimento dos primeiros cursos oficiais de Odontologia no país, até que a profissão obtivesse seu merecido reconhecimento. Este será o tema de nosso próximo capítulo em “Odonto História”. Não deixe de conferir!
 
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