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Um pouco mais sobre evolução

Um dos assuntos que sempre fascinou todas as pessoas é a evolução do homem. É um assunto que nunca se esgota, há sempre novas pesquisas sendo feitas. É justamente por isso que decidimos continuar com o assunto de nosso último texto e destinamos mais um capítulo do Odonto História a esse tema tão interessante.

 

As várias espécies de primatas – como macacos, chimpan-zés e orangotangos – são consideradas as mais inteligentes e parecidas com os seres humanos. Um bom modo de se estudar a evolução humana e as características herdadas desses primatas é através da análise de arcadas dentá-rias.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os dentes, por serem estruturas bastante duras e resis-tentes, são preservados como fósseis e possuem um papel importante no estudo da evolução humana. Entre as ma-neiras utilizadas para analisar arcadas dentárias, podemos citar as fórmulas dentais.

 

As fórmulas dentais são utilizadas na identificação e classificação dos primatas. Para aplicá-la basta contar o número de dentes presentes em meia arcada dentária e multiplicá-lo por quatro.

 

 

Os defensores da evolução humana afirmam que o processo evolutivo desde os ancestrais dos macacos até os seres humanos atuais é longo. A evidência científica mostra que os traços físicos e comportamentais encontrados nos seres humanos são fruto de uma evolução de pelo menos de 6 milhões anos.

 

Como surgiram os dentes

 

Os dentes derivaram de escalas ósseas do corpo similares às escalas de placas na pele de tubarões modernos. As estruturas do dente, tais como as encontradas nos seres humanos, são restritas a determinados vertebrados, isto é, à maioria dos peixes, mamíferos, répteis e alguns anfíbios. Em muitos vertebrados os dentes são substituídos durante toda a vida do animal.

 

Os peixes e répteis que têm dentes apresentam uma dentição homodôntica, sem diferenciação entre os dentes, enquanto os mamíferos apresentam uma dentição hetero-dôntica (característica que já foi retratada aqui no Odonto História). Uma nova pesquisa, baseada em fósseis de espécies de peixes da Austrália Ocidental e publicada recentemente, sugere que a evolução dos dentes pode não ser tão direta quanto se pensava.

 

Os placodermos são o grupo o mais primitivo de vertebrados sem mandíbula, e como tais, têm muito a nos dizer sobre a evolução de várias características dentro desse grupo. Por exemplo, os dentes foram pensados para ser ausentes nos placodermos – suas dentições seriam compostas por peque-nos dentes ou placas ósseas.  Mas os genes responsáveis pelo desenvolvimento dos dentes estavam presentes no antepassado comum a todos os vertebrados sem mandíbula e se expressaram no final, produzindo dentes separados dentro dos placodermos e em outros vertebrados sem mandíbula.


Placodermo

 

A importância de Darwin

 

Poucos livros mexeram tanto com o mundo como “A Origem das Espécies” de Charles Darwin. Influenciado em parte pela teoria do geólogo britânico Charles Lyell sobre a mu-dança gradual da Terra, o naturalista bri-tânico Charles Darwin passou décadas de-senvolvendo sua Teoria da evolução através da seleção natural antes de publicar seu li-vro em 1858.

 

A extensão lógica da teoria de Darwin era que os seres humanos também evoluíram com o passar dos anos, idéia que causou bastante controvérsia. Para as pessoas que aceitavam o ponto de vista bíblico da criação, a idéia de que os seres humanos possuíam raízes comuns com outros animais menos desenvolvidos foi chocante. Em alguns locais a teoria de Darwin foi, inclusive, proibida de fazer parte dos currículos escolares, tamanho o absurdo que a ela era atribuído.

 

Os seres humanos modernos também são primatas. Em algum ponto ao longo do curso da evolução do primata o desenvolvimento dos seres humano tomou outro rumo.

 

Embora existam muitas semelhanças entre os primatas – mais particularmente entre os gorilas, os chimpanzés e os seres humanos modernos –, diferenças fundamentais comprovam a divergência no desenvolvimento, como foi visto no último capítulo do Odonto história.

 

Com o objetivo de investigar a história da evolução do Homem, foram feitas tentativas de usar a dentição como parâmetro da evolução. As coroas de espécies e subespécies do chimpanzé e do Homo sapiens foram exami-nadas para investigar duas tendências dentais diferentes: uma redução no tamanho da coroa e na complexidade morfológica no Homo sapiens e um aumento em ambas as características nos Paranthropus – um dos hominídeos mais antigos já encontrados.

 


Paranthropus

 

Fatores que possibilitaram a evolução

 

Por volta de 6 milhões de anos atrás, na África, uma espécie parecida com o macaco evoluiu com dois traços importantes que a distinguiram dos macacos: eles eram bípedes e apresentavam caninos pequenos. As mudanças na dentição desde que os seres humanos primitivos apareceram na Europa são bem documentadas, por isso, os dentes são uma excelente fonte para  estudo. Eles são preservados em grande número, quando comparados a outras partes do esqueleto. Além disso, são uma reflexão próxima do genó-tipo, são afetados pelas forças da seleção natural, e são facilmente tratados por métodos quantitativos.

 

O tamanho dos dentes começou a apresentar uma redução gradual durante o Paleolítico Superior (até 10 mil a.C.), em uma taxa de aproximadamente 1% a cada 2.000 anos até o fim do Pleistoceno, aproximadamente 10.000 anos atrás. Começando há aproximadamente 10.000 anos, a taxa da redução parece ter dobrado para aproximadamente 1% a cada 1.000 anos.

 

Na Europa, tanto o tamanho do dente quanto o tamanho do corpo diminuíram nos últimos 50.000 anos. Quando o tamanho do dente é comparado ao tamanho de corpo, a redução na dentição é ainda mais dramática do que a redução no volume do corpo.

 

Os aborígines australianos não seguiram um caminho parecido com o dos ancestrais europeus. Mesmo que o tamanho do dente do aborígine australiano tenha diminuído desde o Pleistoceno, esse tamanho do dente permaneceu maior em proporção ao tamanho do corpo, o que era válido até mesmo para o tão famoso Homem de Neandertal da Europa Ocidental.

 

O que justificaria a redução do tamanho dos dentes em todo o mundo?

 

Não há nenhuma explicação do que possa ter levado a essa redução do tamanho dos dentes. Desde que os dentes humanos tornaram-se menores, surgiu a questão: Qual a vantagem de se ter dentes menores e mais fracos? Diversas idéias são apresentadas.

 

A primeira justificativa seria que a redução dental é conseqüência da redução facial, ou seja, as forças da seleção não afetam os dentes diretamente. Isso nos deixaria em um dilema se persistirmos com a idéia de que os dentes são diretamente afetados por forças da seleção natural.



Comparação de caninos de diferentes épocas

 

Outra justificativa seria a de que dentes menores apre-sentariam uma vantagem econômica; poucos recursos são utilizados para fazer os dentes menores. Este argumento foi considerado por alguns como tolo e inconseqüente.

 

A utilização da tecnologia na preparação dos alimentos também pode ter eliminado as forças que mantiveram previamente o tamanho do dente, o que seria uma terceira justificativa. Os beneficiados com essas novas técnicas poderiam, inclusive, sobreviver sem nenhum dente.

 

Ao longo dos últimos 7.000 anos na Europa, Oriente Médio, China, Japão e Sudeste Asiático a taxa da redução dental é praticamente a mesma. Mas uma questão intrigante conti-nua: por que os aborígines australianos não acompanharam a redução do tamanho do molar comum aos hominídeos da época? A resposta pode ser a chegada da tecnologia. O forno de terra pode ter chegado lá por último, e daí é possível prever que os aborígines australianos foram os últimos a começarem a trajetória da redução humana.

 

Os pequenos desgastes dentais foram bastante estudados tanto em primatas extintos como em não-extintos, incluindo os seres humanos. A informação referente à dieta e ao ambiente, que pode ser derivada das análises do desgaste dental, mostra que o desgaste também é decorrente entre espécies de não-primatas como ratos silvestres, carneiros, bastões, toupeiras, antílopes, porcos e até mesmo dinos-sauros. Na tentativa de reconstruir o ambiente e a dieta da espécie, as pesquisas de desgastes dentais transformaram-se em um procedimento bem sucedido e bastante utilizado.

 

Em um estudo de caso, uma nova abordagem foi empregada para comparar detalhes na superfície oclusal dos molares gastos de Australopithecine (A. afarensis, A. africanus, P. robustus), para destacar diferenças no desgaste. A topo-metria ótica de alta resolução permite-nos obter parâmetros em 3-D das maxilas e dos dentes através de modelos do computador. A comparação de várias morfologias oclusais dos dentes gastos é feita na tentativa de interpretar sua funcionalidade, levando princípios dentais e ortodônticos em conta.

 

Conseqüentemente, o relevo oclusal, a geometria e as pro-porções das cúspides, a inclinação das cúspides e da super-fície oclusal e a exposição da dentina são quantificadas. As diversas modalidades do desgaste oclusal em Autralopi-thecines refletem diferenças no comportamento ao mastigar e podem indicar uma diversidade dietética entre os homi-nídeos.


Australopithecine

 

O mais antigo hominídeo já descoberto recebeu o nome de Australopithecus afarensis. Os fósseis em que se baseia esta reivindicação têm aproximadamente 3 ou 4 milhões de anos e foram encontrados durante a década de 1970 em dois locais distintos na África Leste. Todos os hominídeos previamente reconhecidos, entretanto, apresentavam molares maiores e os incisivos e caninos menores do que os de macacos. O A. afarensis, no entanto, possuía os incisivos muito mais largos e maiores, caninos salientes, apresentando mais semelhanças com os de um macaco. A presença de tais características dentais primitivas em um Australopithecine tem profundas implicações para a história evolucionária.

 

A teoria mais segura com relação ao assunto mostra que as linhas evolucio-nárias que conduzem aos seres humanos e macacos divergem há uns 12 ou 15 mi-lhões de anos, quando os macacos de que os seres humanos descendem desceram das árvores e começaram a explorar os recursos da terra para conseguir alimento. Esta mudança no habitat parece ter dado origem a uma dentição parecida com a dos humanos, que é mais eficiente para mastigar alimentos duros, tais como se-mentes e raízes. Os dentes e as maxilas encontradas em fósseis de um tipo humano caracterizaram uma criatura chamada Ramapithecus, que viveu por volta de 10 milhões de anos atrás e normalmente é considerado um antepas-sado humano.

 

Conclusões

 

Depois de décadas e décadas de estudo sobre a evolução humana, não sobram dúvidas de que o homem moderno e alguns primatas, como o chimpanzé e o gorila, evoluíram do mesmo ser. As semelhanças entre as arcadas dentárias também não deixam dúvidas. Inclusive, os dentes são uma excelente fonte de pesquisa para esse assunto.

 

Não há como negar: os dentes definitivamente possuem um papel importante na História da Humanidade.

 

 

 
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